A Alphabet, controladora do Google, apresenta o balanço do segundo trimestre nesta quarta-feira sob forte escrutínio dos investidores. No centro das atenções está o adiamento do Gemini 3.5 Pro — o modelo de ponta pensado para reduzir a distância em relação aos rivais em programação e tarefas agênticas — somado à crescente preocupação com o retorno dos gastos bilionários em infraestrutura de IA.
Segundo analistas de mercado, o resultado deve vir sólido nos números principais, mas a leitura do dia tende a girar menos em torno da receita e mais em torno de uma pergunta incômoda: quanto tempo e dinheiro o Google ainda vai gastar para entregar um modelo realmente competitivo na fronteira da IA. A projeção de consenso aponta para uma alta de cerca de 21,3% na receita trimestral, para aproximadamente US$ 116,93 bilhões, puxada principalmente pela nuvem.
O atraso do Gemini 3.5 Pro e o custo de correr atrás
O ponto mais sensível é o adiamento — de junho para uma data ainda não confirmada — do Gemini 3.5 Pro. Trata-se do modelo mais avançado da empresa, projetado especificamente para disputar espaço no mercado de ferramentas de IA voltadas a código e a fluxos de trabalho agênticos, hoje um dos campos mais quentes e mais lucrativos do setor.
O timing é desconfortável. Enquanto o Google recalibra o lançamento, laboratórios chineses de código aberto vêm pressionando os grandes players americanos com modelos cada vez mais capazes e baratos. Para alguns gestores, isso levanta o risco de “sobre-construção”: erguer capacidade de data center numa velocidade e num custo que o mercado talvez não consiga absorver de forma rentável.
Dave Wagner, gestor da Aptus Capital Advisors, resume a tensão ao afirmar que o Google estaria “perdendo o barco” na IA para programação — ainda que pondere que a força da companhia está justamente no ecossistema que ela controla de ponta a ponta. Esse é o mesmo território que abordamos ao falar da nova fase agêntica do Gemini, em que o modelo deixa de ser só um chatbot e passa a executar tarefas.
A conta bilionária da infraestrutura
Por trás do escrutínio está o tamanho da aposta. Em abril, a Alphabet elevou a projeção de investimentos (capex) para 2026 à faixa de US$ 180 a 190 bilhões e, segundo o noticiário de mercado, planeja captar cerca de US$ 85 bilhões em ofertas de ações — movimento que incluiria aporte da Berkshire Hathaway.
- Capex projetado para 2026: US$ 180 a 190 bilhões, elevado em abril;
- Captação prevista: cerca de US$ 85 bilhões em ofertas de ações;
- Pressão nas ações: queda de aproximadamente 9% desde o fim de abril, apesar de a empresa ter reportado, na ocasião, alta de 63% nas vendas de nuvem;
- No acumulado do ano: alta de cerca de 13%, a segunda melhor entre as “Magnificent Seven”.
O paradoxo aparece nesses números: a ação sobe no ano, mas fica para trás do grupo de gigantes de tecnologia no período mais recente. O mercado parece querer ver não apenas a capacidade sendo construída — parte dela viabilizada por silício próprio, como o chip Frozen v2 que promete rodar o Gemini de forma muito mais eficiente — mas também a prova de que esse investimento se converte em modelos líderes e em receita recorrente.
Nuvem forte, publicidade mais lenta
Se há um motor claro no trimestre, ele deve ser a nuvem. Analistas projetam crescimento próximo de 64% no Google Cloud, enquanto a publicidade — historicamente o coração do negócio — avançaria de forma mais modesta, cerca de 13,7%.
Boa parte do fôlego da nuvem está ligada, justamente, à infraestrutura de IA. O negócio se beneficia de contratos que envolvem os chips de IA próprios do Google, com acordos bilionários que, segundo o noticiário do setor, incluiriam nomes como Meta e Anthropic. Ou seja: a mesma capacidade que preocupa pelo custo é também o que sustenta a linha que mais cresce.
Talentos, ecossistema e a tese de fundo
A pressão competitiva também tem rosto. O Google perdeu figuras de peso para rivais, entre elas Noam Shazeer, um dos co-líderes do Gemini, e o Nobel John Jumper, executivo-chave do DeepMind. Saídas assim reforçam a narrativa de que a disputa por cérebros está tão acirrada quanto a disputa por chips.
Ainda assim, os defensores da tese apontam vantagens difíceis de replicar: uma rede de distribuição de consumo gigantesca (Search, Android, YouTube), modelos próprios, infraestrutura de nuvem e chips desenhados internamente. Combinada, essa integração vertical é o que sustenta o argumento de que o Google pode chegar atrasado a um modelo específico e, mesmo assim, recuperar terreno pela escala. Para quem quer entender onde o Gemini se posiciona hoje, vale o comparativo entre os principais assistentes.
O que se desenha, portanto, é um balanço de contrastes: números provavelmente robustos convivendo com uma dúvida estratégica de fundo. A quarta-feira não deve responder se a aposta bilionária vai dar certo — mas pode indicar se o mercado ainda está disposto a esperar.
Perguntas frequentes
Por que o balanço da Alphabet está sob tanta atenção?
Porque coincide com o adiamento do Gemini 3.5 Pro e com o debate sobre o retorno dos gastos massivos em data centers e IA. Investidores querem sinais de que o investimento se traduz em modelos competitivos e receita.
O que é o Gemini 3.5 Pro e por que ele importa?
É o modelo de ponta do Google, projetado especialmente para tarefas de programação e fluxos agênticos — áreas em que os concorrentes têm ganhado destaque. O atraso alimenta a percepção de que o Google corre atrás nesse nicho específico.
A Alphabet está indo mal na bolsa?
Depende do recorte. No acumulado do ano, a ação sobe cerca de 13% (segunda melhor entre as “Magnificent Seven”), mas recuou aproximadamente 9% desde o fim de abril, ficando atrás das demais gigantes no período recente. Este texto é uma análise de mercado e não constitui recomendação de investimento.
Stay connected