Rebanho monitorado por inteligência artificial passa a ser usado como garantia de empréstimo rural registrado na B3
Animais usados em operações de crédito rural ganharam uma nova camada de segurança no Brasil. Dados de saúde, localização e produtividade agora podem ser compartilhados com instituições financeiras.
A mudança ocorreu em uma operação pioneira, na qual um rebanho tokenizado foi registrado na B3 como garantia de um empréstimo para uma fazenda de Belo Horizonte, em Minas Gerais.
Conforme informações divulgadas pelos responsáveis pela operação, a tecnologia pode reduzir a percepção de risco dos bancos e facilitar o acesso de produtores a recursos para custeio e capital de giro.
Como funcionou a primeira operação com gado tokenizado
Na operação realizada pela Target FIDC, 10 vacas leiteiras foram avaliadas em R$ 120 mil. O valor permitiu a liberação de um empréstimo de R$ 100 mil para a Fazenda Engenho Velho.
O contrato estabeleceu uma razão de garantia de 1,2. Isso significa que o valor dos animais precisava corresponder a 120% do saldo devedor durante a vigência do financiamento.
Segundo Humberto Brenner, diretor da Target FIDC, a relação entre o valor dos animais e o crédito considera os riscos de saúde, localização e eventual perda do rebanho.
Com o pagamento das parcelas, a garantia necessária diminui na mesma proporção. Se uma vaca morrer depois de parte da dívida ter sido quitada, pode não ser necessário substituir o animal, desde que a razão contratual continue sendo respeitada.
Colar acompanha saúde, localização e produção das vacas
O monitoramento é feito por um colar desenvolvido pela Cowmed, apontado como o primeiro equipamento do tipo voltado especificamente para vacas leiteiras.
O dispositivo coleta informações sobre alimentação, descanso, ruminação, respiração, temperatura e localização de cada animal. Os dados são analisados por inteligência artificial.
Com base nesse acompanhamento, o sistema pode indicar se a vaca está saudável ou se apresenta sinais de alguma doença. A ferramenta também identifica a evolução do quadro durante o tratamento.
O equipamento foi contratado originalmente para auxiliar o produtor no manejo do rebanho. Na Fazenda Engenho Velho, os animais são monitorados há 10 anos, e os dados são consultados diariamente por veterinários.
Além das informações de saúde, o colar reúne o histórico da vida produtiva do animal e permite acompanhar a produção de leite. Esse conjunto de dados também fica disponível para a instituição financeira.
Token impede que o mesmo animal seja dado em garantia mais de uma vez
Na tokenização, os animais selecionados pelo proprietário são vinculados a um código único dentro de uma plataforma baseada em blockchain.
De acordo com a Cowmed, o código permite rastrear o ativo e dificulta alterações indevidas nos registros. O sistema também impede que a mesma vaca seja usada como garantia em empréstimos diferentes.
O banco pode consultar um painel com informações atualizadas sobre a saúde e a localização do gado. Caso um animal morra, a instituição é avisada e o produtor pode precisar repor a cabeça, conforme o saldo da dívida.
Essa rastreabilidade busca resolver uma das principais dificuldades das operações com animais. Antes, o credor tinha pouca capacidade de confirmar onde estava o gado e em que condições sanitárias ele se encontrava.
Por que o gado pode ampliar o crédito rural
Humberto Brenner afirma que os animais sempre foram vistos como uma garantia menos atrativa pelo sistema financeiro. Uma vaca avaliada em R$ 20 mil, por exemplo, poderia representar apenas R$ 8 mil em garantia.
O desconto ocorria porque o banco precisava compensar incertezas com redução do valor aceito ou aumento do custo do empréstimo. O monitoramento contínuo pode diminuir essa margem de insegurança.
O uso de gado como garantia costuma aparecer em empréstimos menores, destinados ao custeio da produção ou ao capital de giro. Em operações maiores, produtores geralmente preferem oferecer a própria propriedade.
Na avaliação do diretor da Target FIDC, não seria vantajoso usar uma matrícula imobiliária de R$ 10 milhões para garantir um empréstimo de R$ 300 mil destinado ao capital de giro.
A tecnologia também pode tornar a recuperação do crédito mais simples. Diferentemente de um automóvel, que pode se deteriorar em um pátio, ou de um imóvel, que pode enfrentar dificuldades de venda em leilão, o gado tem maior liquidez.
Segundo Brenner, os animais funcionam praticamente como uma commodity. Com um ajuste no preço e a apresentação do histórico sanitário, a venda pode ser realizada com mais facilidade.
A expectativa é que a combinação entre inteligência artificial, blockchain e dados de produção ajude a transformar o rebanho em uma garantia mais transparente. O modelo ainda é inicial, mas abre uma nova possibilidade para o financiamento da pecuária leiteira.
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